Os partidários do Diesel fogem dele a sete pés e os que querem realmente emoções fortes esperam pelo A45 AMG. Que destino para este Classe A de 211 cv, desenquadrado da realidade portuguesa e, no entanto, tão genuinamente bom de conduzir?




Os amigos do Diesel deviam aproveitar a oportunidade e ir a um concessionário Mercedes-Benz fazer um test drive de um A250. Talvez ficassem a perceber que também se consegue ter imenso binário a baixa rotação – 350 Nm logo às 1200, nem dá para sentir falta de impulso! – e potência para dar e vender até depois das 4000 rpm... mas sem vibrações, sem barulho de cavalos a bater com os cascos, tudo com suavidade e “finesse”. Claro que, em contrapartida, ao fim de cem quilómetros já derreteram quase meio depósito, se andarem a usufruir bem dos 211 cv.

Esse deverá ser o fator decisivo para os partidários do gasóleo irem à sua vidinha cientes de terem feito uma escolha sensata ao comprar um Diesel económico, por muito que passem o resto dos dias a suspirar por um motor como este. De que motor se trata? Na verdade é um “simples” quatro cilindros turbo, com injeção direta e uma gestão variável “Camtronic” para a abertura e fecho das válvulas de admissão e escape. Aliás, esta gestão faz, inclusivamente, com que parte do ar frio admitido expulse o ar quente para o coletor de escape – a isto chama-se “scavenging”, em português talvez se traduza melhor para “varrimento” – motivo pelo qual o trabalho do turbocompressor é tão facilitado e a resposta tão pronta. O motor permite, de facto, bons arranques, excelentes recuperações, e os dois veios de equilíbrio em contraciclo (nenhum outro Classe A atualmente existente os tem) reduzem as vibrações ao mínimo possível.

Onde está o problema?
Será que tanto elogio tem que esconder algum defeito? Há contrariedades, seguramente. Este Classe A não é um carro barato, não, mas mesmo neste parâmetro há que notar algumas realidades: dentro da gama, o Diesel mais “equiparado” em potência e performance é o A220 CDI de 170 cv, que afinal custa menos 750 euros se contarmos o preço sem qualquer extra; quanto aos rivais, encontra-se um Audi A3 de 200 cv por 37 603 euros e um BMW 125i de 218 cv por 39 580 euros, preços base sem extras mas, qualquer um deles, abaixo da tabela de referência para o A250; um rival que faria todo o sentido como referência seria o VW Golf GTI de 211 cv, mas o da geração VI já não se vende e o da VII ainda não chegou.

Dá que pensar, porque são mais de 40 mil euros para um automóvel que precisa ir à bomba de gasolina a cada 450 km... se o condutor for meiguinho com o pedal da direita. E esse é, no fundo, um primeiro paradoxo: não se pode pensar num automóvel destes e lamentar que gaste tanto. Tem 211 cv, anuncia 240 km/h de velocidade máxima e acelera com entusiasmo. Seria impossível.

O segundo ponto de interrogação – e este, arrisco dizer, é o mais significativo de todos – será tentar perceber para que serve um A250. É que, se os fãs do Diesel não querem saber dele para nada, um potencial comprador de versões desportivas com motores a gasolina vai querer esperar. Por quem? Pelo A45 AMG, uma máquina que há de ter uns 370 cv e uma potência específica de 185 cv por litro, mas só vai chegar em setembro e nunca por menos de 70 mil euros. É muito, é. E porque não estamos em tempos de grandes aventuras, tem de haver quem tenha que olhar para o A250 como a sua versão desportiva.

Só que, nessa circunstância, e perante a quantidade de extras que vai ter que encomendar – só a unidade ensaiada tinha quase 17 500 euros investidos em opcionais! – temos sérias dúvidas que um dos packs não seja o “P84”. Ou seja, o kit que envolve diretamente a AMG na afinação da suspensão, uma direção mais direta, uma faixa vermelha e uma grelha fontal diferentes... no fundo, uma versão AMG sem ser AMG. Custa mais 3500 euros e, com franqueza, num automóvel que de 42 400 euros saltou para praticamente 60 mil (a unidade ensaiada), não fará assim tanta diferença.

Pois este A250 não tinha “dedo” da AMG, a não ser pelos packs de embelezamento (a suspensão é rebaixada em 10 mm). Dinamicamente, a referência que temos do A250 Sport é a que sobra da apresentação dinâmica da Classe A, mas sem instrumentos de medição científica para aferir com exatidão. Sabemos que se comporta de forma excelente, exuberante até, se tivermos em conta que é um tração dianteira. Mas um A250 “sem Sport” também! E nunca chega a ser confortável, com kit ou sem kit.

A ideia que tinha vindo da apresentação dinâmica, juntamente com o que tinha sido comprovado com os primeiros ensaios das versões Diesel em Portugal, confirma que o Classe A é muito bem nascido. O chassis é altamente reativo e sentimos que estamos sempre no controlo das operações, até porque todo o abuso será fortemente repreendido pelo ESP, que mesmo em “off” está sempre de prevenção. Isto é uma pena, porque há quem goste de brincar e não se importe de gastar 800 euros em pneus de vinte em vinte mil quilómetros, mas toda a deriva de traseira provocada a bordo de um Mercedes, já se sabe, será sempre censurada pelo controlo de estabilidade. A não ser que se conduza uma versão AMG.

Os pneus escolhidos para o A250 proporcionam um “grip” naturalmente elevado, um desempenho até interssantemente progressivo se conjugarmos muito bem a velocidade de entrada na curva, com a firmeza do golpe de direção e a quantidade de acelerador à saída, mas, claro, com pneus de perfil tão baixo em jantes de 18 polegadas, o amortecimento é naturalmente firme e faz-se sentir no fundo das costas.

O dilema
O teste termina com a certeza de que este motor, que em breve estará em quase todos os segmentos na gama Mercedes, é uma excelente resposta ao TwinPower Turbo da BMW. Lamentamos a nossa fiscalidade, claro, e esta triste sina de ver um quatro cilindros turbo ser vendido por mais de 42 mil euros, quando na Alemanha se pode comprar por 33 500 euros. Mas continuamos sem justificação para que alguém possa escolher o A250 em vez do A250 Sport.

Para condutores avançados, que procurem os píncaros numa experiência de condução, o chassis do Classe A até pode entusiasmar, mas nenhum deles se contentará enquanto não estiver ao volante de um A45 AMG. Para condutores experientes, talvez faça sentido o A250 na tal versão Sport que tem a influência da AMG na afinação da suspensão e da direção. Mas este veículo ensaiado tem os mesmos 211 cv, um equilíbrio dinâmico notável e uma segurança a toda a prova que, ao fim e ao cabo, será capaz de preencher em pleno a expetativa do mais comum dos condutores. É difícil convencer alguém de que valerá a pena considerar pagar tanto dinheiro por um A250, quando, pelo mesmo valor, se pode comprar um C200 CDI. Mas deve ser mais fácil convencer muitos condutores a experimentá-lo. Talvez alguns mudassem de ideias para passar a andar a gasolina – ah!, a utopia...  

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