Em alturas de crise, é natural que se desça no “plafond” para os chamados carros de serviço. As marcas Premium não descuram esta dinâmica do mercado e oferecem versões com menos potência, dos seus modelos preferidos. Qual o melhor?...




O opcional “omissão de versão na tampa da bagageira” arrisca-se a voltar ao topo dos mais procurados. As empresas estão a comprar versões menos potentes, para baixar os custos em carros de serviço, e não trazer nada escrito na tampa da mala é uma boa maneira de não mostrar que se desceu de um 320d para um 318d ou de um C220 CDI para um C180 CDI. Mas será que o utilizador perde assim tanto? Para responder a esta pergunta reunimos precisamente o BMW 318d, Mercedes-Benz C180 CDI e aproveitando o facto de a Audi ainda não ter em Portugal um dos novos A4 2.0 eTDI para nos ceder, optámos por convidar um “intruso” neste clube restrito dos Premium habituais: o VW CC 2.0 TDI. A sua fisionomia coupé, o ambiente interior e a dinâmica colocam-no como uma alternativa credível.

A imagem de marca é dos pontos mais relevantes para muitos dos compradores de um BMW ou de um Mercedes-Benz, como é sabido. No novo Série 3, o cliente leva ainda um modelo acabado de lançar, enquanto no Classe C, leva um “restyling” que lhe deu um novo fôlego. O CC também teve um “restyling” mas nem precisava. O seu perfil coupé é suficiente para lhe dar um apelo muito próprio e (surpresa!..) até beneficia a capacidade da mala, que é a maior deste comparativo. Em resumo, o símbolo menos Premium da VW é bem compensado pelo conceito do CC. O que também se nota no habitáculo.

O teto mais baixo do CC dificulta o acesso, sobretudo aos lugares de trás mas os vidros sem aros contribuem para o seu charme. O problema é que o banco traseiro está muito esculpido para dois lugares, que são muito bons e que até têm o maior espaço para as pernas, mas o lugar central é quase inútil. Somando todas as cotas, o Série 3 é o mais habitável e o Classe C é claramente o mais pequeno. Mas ambos levam cinco passageiros com menos desconforto que o CC.

Sentado ao volante e olhando à volta, no BMW impressiona a qualidade dos materiais, que fica um degrau acima dos outros, sobretudo pela atenção dada às zonas mais baixas. Tanto o Série 3 como o Classe C têm porta-objetos menos práticos que o CC, no qual o porta-copos se pode transformar num grande quadrado com tampa. O VW é o único com travão de mão elétrico, o Série 3 deste ensaio tinha um travão manual e o Classe C insiste no travão de pé.

Para fechar a análise estática, resta dizer que, no equipamento considerado neste comparativo, o C180 CDI leva vantagem, seguido pelo CC, que não tem navegação e deixando o 318d para trás, mesmo considerando este com o Line Sport, que inclui os bancos desportivos multi-ajustáveis. Aliás, as regulações são tantas (inclinação geral, apoio lateral e comprimento do assento) que demora algum tempo até chegar à posição ideal. O banco do CC encaixa o condutor à primeira e o banco do Classe C é demasiado plano, com pouco apoio lateral.

O 318d, como todos os Série 3, traz de série um botão na consola que muda a resposta do acelerador e a assistência da direção entre quatro níveis. O primeiro chama-se Eco Pro e está focado na redução de consumos; no outro extremo está o Sport+ que até coloca o controlo de estabilidade numa ação mais liberal. Isto facilita imenso a condução, como é óbvio, mas a verdade é que os comandos do CC estão tão bem calibrados, que nem precisa desse tipo de soluções. Aliás, o VW tem a caixa de velocidades mais rápida e suave, a do Série 3 exige mais decisão (o que é do gosto dos condutores mais “desportivos”) e a do Classe C é realmente lenta. O Mercedes-Benz tem o motor de maior cilindrada (2143 cc) mas o seu desempenho a baixos regimes não é tão linear como os outros e é, de longe, o mais ruidoso. O 2.0 TDI do CC é ultra-suave e silencioso e o 2.0d do Série 3 fica algures no meio, em termos de refinamento. Mas quando o discurso vira para as prestações, a conversa é outra.

Na nossa sessão de medições, tanto nas acelerações como nas recuperações, os 143 cv do 318d não dão hipóteses. Curiosamente o C180 CDI de 120 cv e o CC 2.0 TDI de 140 cv, fazem jogo muito igual entre si, com vantagem do CC nas recuperações. Nas travagens, apesar de estarem três marcas e medidas de pneus em confronto, as diferenças são quase nulas. Curioso.

Não é preciso muitos quilómetros para perceber que não há aqui nada de desportivo, entre estes três modelos, A sigla Sport do BMW reporta-se ao equipamento. Mas isso até faz sentido, tendo em conta o caráter destas versões. Uma volta com o C180 CDI numa rua de empedrado mostra que as jantes de 16’’ são uma boa opção, em prol do conforto. Mas basta passar para o volante do CC para ver que a VW fez um trabalho ainda melhor, no conforto. A surpresa vem mesmo do 318d que passa, exatamente pela mesma rua, com uma superior indiferença. Como se estivéssemos a bordo de um Série 5. Aliás, esta sensação de que o BMW está meio segmento acima dos outros também se nota no comportamento. O Classe C é sempre mais ágil, mais fácil e preciso de posicionar, também porque tem a direção Agility Control.

No Série 3 é preciso mais empenho e surge um pouco de subviragem na entrada em curva. Quanto ao CC, sendo o único tração à frente deste comparativo, as rodas da frente têm que lidar com os esforços da direção e da tração, repartidos pelas quatro rodas nos outros. Mas o resultado é eficaz, se bem que não tão refinado. Em auto-estrada, o CC tem claramente a suspensão mais macia, que o deixa oscilar mais para ganhar conforto. O Classe C surge como o mais firme, notando-se bem as juntas de dilatação dos viadutos e o Série 3 acaba por ter a melhor relação entre controlo e serenidade.

Com pesos totais semelhantes e stop/start em todos, os consumos registados são muito próximos, não havendo um litro de diferença entre o melhor e o pior, o que é notável. Continuando a falar de euros, a BMW inclui um programa de manutenção de 5 anos ou 100 000 Km durante os quais o cliente não paga mudanças de óleo, de filtros e respetiva mão-de-obra. Uma vantagem importante. Finalmente, o preço. O CC 2.0 TDI tem o preço mais baixo, com uma margem de mais de 7000 euros para os outros dois e ainda consegue ter a melhor relação preço/equipamento, aspeto em que a BMW é batida pela Mercedes-Benz.

No final, a vitória do 318d é mesmo tangencial. O CC 2.0 TDI é um produto muito competitivo e muito apelativo. O C180 CDI fica a alguma distância, sobretudo pela rudeza do seu motor e caixa e por outros aspetos que resultam da sua idade. A verdade é que o rival deste Série 3 é o próximo Classe C.

 


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