Sandro Meda

Único, em massa

Ao longe, já noite cerrada, numa dessas vias largas com três faixas à volta da capital, onde o trânsito àquela hora rola com afluência, mas sem abrandamentos, como se todos os automóveis tivessem já uma espécie de autónomo a guiar certinho, a distância e velocidade constante, na faixa do meio, ao fundo, um aglomerado momentâneo e contínuo. Todas as luzes vermelhas, sem se tornarem mais fortes, suspendiam por breves instantes o ritmo à passagem por quatro outras luzes diferentes de tudo o que estava à sua volta. Na minha vez também abrandei e demorei-me propositadamente atrás do... Corvette Z51 cabrio com matrícula de Nova Iorque. Tenho a sorte de já o ter visto em vários salões internacionais, como em muitas estradas europeias e, quase aos magotes, na sua terra natal, onde também já o conduzi em duas gerações. Mas mesmo com pressa de cama, foi-me irresistível a contemplação: porque o considero um dos mais icónicos e marcantes desportivos de sempre nascidos na América, porque é o melhor super desportivo que eles fazem; porque ali naquela faixa tão estreita os 1,90 metros de largura parecem maiores e, claro, pela mesma razão que obrigou a maior parte de todos os outros condutores a uma espécie de vénia  quando por ele passaram: porque é diferente de tudo o se vê normalmente, às vezes numa vida, nas estradas portuguesas. É essa também a razão de continuarem a chegar ao mercado novos SUV, porque poucos ou nenhuns podem ter um Stingray por cá. É a forma mais rápida e acessível de cada condutor sentir o seu momento de diferença vivido por dentro. Mesmo com a fiscalidade automóvel mentirosa criada pelo governo “Classe 2007”, como se confirma nos números aqui à direita, há um mundo de automóveis velhos para trocar que vai continuar a alimentar a vontade, tão natural, legítima e emotiva de se ser diferente; e é o formato SUV compacto que melhor e mais facilmente cumpre esse papel, hoje.

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