Performance. É o anglicismo menos traduzível e um dos mais indefinidos, mas, simultaneamente, o que mais emoção e mais rapidamente consegue rotular um automóvel especial. Quanto maior a performance, mais especial; e isso, claramente, assenta que nem uma luva aos veículos clássicos. Aliás, a performance é em inúmeros casos a principal razão de tantos clássicos terem sobrevivido até aos nossos dias; e a de muitos mais terem desaparecido prematuramente. Olhe-se a performance de um ângulo dinâmico, e associamos de imediato a velocidade, potência, aerodinâmica, elegância, tecnologia, precisão.

O que é hoje um clássico de elevada performance, teve que ser ainda mais impressionante, mais especial e dispendioso à data da criação. A performance é cara, e quando se juntam as duas coisas, forma-se um terceiro elemento, o da raridade, e define-se assim o grau de preciosidade de um automóvel, à nascença. Mas, e se invertermos o ciclo? A performance não pode ser um atributo engrandecido pelo tempo? Claro que sim. Negá-lo seria fazer ruir os melhores atributos da riqueza clássica. Portanto, ainda que o substantivo seja comummente ligado às prestações de sentido desportivo, a objetivos tantas vezes só teóricos, com a amplitude da língua portuguesa, essa mesma performance pode ser desdobrada num sinónimo tão valioso: desempenho. Desempenho no sentido da coisa que cumpre cabalmente o que dela se espera; que executa ininterruptamente, sem desiludir. É aqui que entra o tema principal desta Motor Clássico: a Volvo. É um dos construtores que melhor sabe materializar em automóvel o conceito de "desempenho". Com 90 anos, tem idade para poder acrescentar mística e incertezas na sua longa história, como veremos no dossier que preparámos, a começar no próprio nome, que entre outras teorias atribui a formação das cinco letras à boa fonética de uma derivação do termo em latim que define o gerúndio de "rolar". Magnífica teoria, e ainda melhor definição.

Quem já esteve na Escandinávia, principalmente no pino do inverno, quando até o centro de uma cidade consegue ser tão inóspito como o deserto, consegue compreender o valor de um automóvel que não pare de rolar até ao destino e que, ao mesmo tempo, torne a jornada tão confortável e familiar como se já estivéssemos em casa. É naquelas estradas, naqueles dias ininterruptamente sem nada, nem gente, nem luz, nem calor, quase sem vida, quando dependemos da máquina, e a máquina só depende dela, que se mede a performance. E quando se repete incessantemente e se perpetua no tempo, esta performance torna-se tão impressionante como o maior dos máximos. Torna-se até mais impressionante do que o máximo instantâneo que não se repete.

Ao longo da história dos seus 90 anos, a Volvo, como qualquer negócio, procurou outras "performances" do mundo automóvel que detalhamos nesta edição, e até se aventurou com um sucesso quase absoluto no mais ambicioso de todos, o da competição. Mas nem aí se separou de um dos seus dois paradigmas, o das carrinhas, que também encerra tantas outras qualidades indissociáveis de uma marca única nos conceitos de segurança, espaço, funcionalidade e até de inovação. Está quase tudo no Volvo que escolhemos para a capa, uma 245 replicada em teste a uma unidade nacional que, ainda hoje, 35 anos depois, sem restauros, sem interrupções, sem vaidades, cumpre cabalmente o melhor da performance: nunca ter descido aos mínimos. E isso, para mim, é o máximo, principalmente num clássico.

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